Tenho uma colega no trabalho que não tem uma perna. Nunca perguntei como aconteceu, mas tenho ideia de ter ouvido que terá sido num acidente, talvez de viação.
Usa uma prótese e são mais os dias em que nem sequer coxeia do que todos os outros. Nunca a ouvi queixar-se da vida a não ser nos dias em que a prótese lhe dá comichão ou que "parece uma coisa estranha que trago aqui" e é nesses dias que coxeia.
Anda sempre bem disposta, fala-me dos filhos e tem histórias engraçadas para contar. Oiço-a a falar com os filhos ao telefone, dois rapazes adolescentes, e não diz mal do pai deles; só os protege quando lhe ligam a dizer que o pai não telefonou e que não querem ir passar o fim de semana com ele.
Pede bilhetes para os concertos e participou numa ação de solidariedade em que andaram a remodelar uma escola.
Usa saias com collants seja de inverno ou verão e não se nota que seja uma prótese. Diz que no verão vai à pedicure e manda pintar as unhas da prótese, "mas é uma chatice porque depois tenho de andar o verão todo com a mesma cor, porque não vou tirar com acetona, posso estragar".
Não se chateia quando arrumam no lugar de deficientes dela, mas nisso acho que deveria. As pessoas têm de ser civilizadas.
Não se chateia quando arrumam no lugar de deficientes dela, mas nisso acho que deveria. As pessoas têm de ser civilizadas.
Uma vez uma senhora parva fez um comentário parvo numa conversa sobre pessoas coxas e ela, sem pensar, tirou a prótese e mandou com ela pelo ar. Acho que toda a gente na sala ficou em pânico de ver uma perna a voar. Mas hoje contam a história com muita graça e à frente dela.
É um exemplo sem sequer o querer ser. Assim é que são os exemplos.


