Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

a força

Tenho uma colega no trabalho que não tem uma perna. Nunca perguntei como aconteceu, mas tenho ideia de ter ouvido que terá sido num acidente, talvez de viação.
Usa uma prótese e são mais os dias em que nem sequer coxeia do que todos os outros. Nunca a ouvi queixar-se da vida a não ser nos dias em que a prótese lhe dá comichão ou que "parece uma coisa estranha que trago aqui" e é nesses dias que coxeia.
Anda sempre bem disposta, fala-me dos filhos e tem histórias engraçadas para contar. Oiço-a a falar com os filhos ao telefone, dois rapazes adolescentes, e não diz mal do pai deles; só os protege quando lhe ligam a dizer que o pai não telefonou e que não querem ir passar o fim de semana com ele. 
Pede bilhetes para os concertos e participou numa ação de solidariedade em que andaram a remodelar uma escola.
Usa saias com collants seja de inverno ou verão e não se nota que seja uma prótese. Diz que no verão vai à pedicure e manda pintar as unhas da prótese, "mas é uma chatice porque depois tenho de andar o verão todo com a mesma cor, porque não vou tirar com acetona, posso estragar".
Não se chateia quando arrumam no lugar de deficientes dela, mas nisso acho que deveria. As pessoas têm de ser civilizadas.
Uma vez uma senhora parva fez um comentário parvo numa conversa sobre pessoas coxas e ela, sem pensar, tirou a prótese e mandou com ela pelo ar. Acho que toda a gente na sala ficou em pânico de ver uma perna a voar. Mas hoje contam a história com muita graça e à frente dela.
É um exemplo sem sequer o querer ser. Assim é que são os exemplos.

Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

os corações amarrotados


entrelinhas

As entrelinhas já não são minhas ou a quem elas pertençam. São usadas e encharcadas, repescadas e questionadas. Têm segredos que têm de obedecer a códigos e de responder a perguntas. As entrelinhas são só as dúvidas que pairam por razão nenhuma ou pela maior razão do mundo. 
(Todas as respostas são as maiores do mundo.) 
Já não conseguem ser só as entrelinhas que alguém sabe ler - deixaram de ser legíveis?
Não são mistério, são desabafos; e nas entrelinhas nos procuramos, mas que não as questionassem.
(Que direito tem alguém sobre as minhas entrelinhas?)
As que sejam minhas leio-as todas e não preciso perguntar. Sei também ler as dos outros. Havemos de ter a humildade de ficar calados.

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada

As músicas em português falam comigo.
Contam-me coisas, partilham os pensamentos que vou guardando.
A língua inglesa só parece bem. Esta, a nossa, quer mais do que isso.
E eu oiço melhor em português.

Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

há sol

e por isso mudei para este design, que está ao meu jeito. 

A minha nova amiga (sim, é mesmo a minha bola)

Ontem fui jogar basket e diverti-me muitíssimo, no (quase) campo de street basket do outro lado da minha rua. 
Lembrou-me quando era miúda e ia brincar para a rua à tarde. Tocavam à campainha e ouvia "A Joana pode vir brincar?". A Joana era muito responsável e fazia primeiro os trabalhos de casa. Depois ia brincar. E ainda hoje brinco assim - as responsabilidades primeiro, para que depois o tempo se possa estender infinitamente.
Mas quando a Joana era miúda não ficava com dores de braços depois do basket. O que me sabe muito bem, se posso partilhar. Também não ficava com um músculo da mão ligeiramente inchado; quero crer que foi da emoção de voltar a ser usado para ficar em forma. 
O meu corpo agradeceu, o meu espírito também. 
Se alguém quiser vir brincar, há sempre espaço para mais um!

hoje


apercebi-me de que não gosto de margaridas.
Não gosto do cheiro delas.
Cheiram a quente e a escape, mesmo quando estou no campo.
Cheiram a dióxido de carbono azedo.
São bonitas, são simples, são de verão e de primavera. São bom augúrio, são um gesto bonito, um presente simpático num dia em que se caminhe num canteiro bem cuidado. São elegantes e convidativas.
Mas eu não gosto de margaridas. É pena, não é?

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

dúvidas:

Devemos considerar as casas de banho do sítio onde trabalhamos casas de banho públicas?
E quando vamos ao wc em casa de amigos?

A questão é: só me é permitido fazer xixi sentada em minha casa?
É que ando cansada.